ARTIGOS

04/02/2011


Beleza não é tudo


Cada vez mais as pessoas são levadas a valorizar apenas o lado estético dos projetos. Mas existem outros aspectos muito importantes que precisam ser valorizados.

Publicado na Folha Revista/ Julho de 2010

O Brasil está passando por um período promissor no ramo da construção. Num período próximo, muitas pessoas estarão envolvidas com a construção, seja de sua própria casa ou de edificações destinadas a algum empreendimento. E preocupa muito o nível de conhecimento que a grande maioria ainda tem sobre a etapa mais importante da construção: o projeto.

É essa importância que alimenta a obsessão pela abordagem do tema nesta seção, cuja orientação editorial inicial seria mostrar coisas bonitas na área de arquitetura, que as pessoas pudessem aplicar. Mas seria uma premissa que só reforçaria a visão distorcida que todos têm do projeto e do trabalho do arquiteto como um todo, que é a valorização desproporcional da estética.

O consultor Ricardo Botelho, que atua na área de arquitetura, tem uma analogia interessante, que pode servir de ponto de partida para algumas considerações sobre a visão que as pessoas precisam aprender a ter sobre um projeto de arquitetura.

Segundo ele, um projeto de arquitetura está apoiado sobre cinco pilares: Estética, Funcionalidade, Saúde, Racionalidade e Viabilidade.

Como numa construção, embora alguns pilares recebam uma carga maior, todos são imprescindíveis para a estabilidade. Qualquer pilar que for removido provoca o desmoronamento de uma parte da edificação e compromete a integridade do conjunto. Entretanto, ao avaliarmos um projeto, nossa tendência é sobrevalorizar o pilar da Estética: projeto bom é projeto bonito, vistoso.

A mídia tem uma responsabilidade grande nisto, pois quase a totalidade do mercado editorial que aborda o tema volta sua atenção para a estética, mostrando belas fotos de edificações e interiores, com o intuito de vender os produtos que os seus patrocinadores comercializam ou o serviço de profissionais que pagam para ocupar suas páginas. Os outros aspectos do projeto são relevados a insignificantes comentários, isto quando chegam a ser abordados.

Tal comportamento tem levado as pessoas a investirem toda a sua preocupação - e por conseqüência os seus recursos – em soluções que atendam ao apelo estético. Não interessa se o projeto aproveitou bem o terreno, se promoveu boas condições de iluminação e ventilação naturais: gasta-se uma fortuna com materiais, revestimentos e acessórios e acredita-se que todos os problemas estarão resolvidos. E aí, como o único intuito é impressionar, o céu é o limite, onde cada um tenta dotar sua construção do que há de mais novo, mais cobiçado, mais caro. Claro que não se trata de desvalorizar o aspecto estético intrínseco à arquitetura, mas de revalorizar aspectos menos visíveis, menos vendáveis e de importância no mínimo igual ao da estética.

O pilar da funcionalidade é de suma importância, pois está intimamente ligado ao modo com que cada família utiliza a casa. Para que seja efetivamente atendido, o arquiteto tem que ter a habilidade e o tempo necessário para captar a mecânica do funcionamento da rotina da família, identificando peculiaridades e hábitos, seja para aplicá-los ao projeto ou para corrigi-los; o prédio educa as pessoas e, se funciona mal, induz as pessoas a se comportarem mal. Quando falamos em tempo, significa que um projeto resolvido rápidamente, dificilmente vai conseguir aprofundar-se o suficiente.

A saúde é um pilar fundamental, que também é sistematicamente rifado das avaliações que as pessoas fazem das residências. Espaços mal insolados, que nunca vêm a luz do sol, podem ser responsáveis por problemas crônicos de saúde como rinites e alergias; falta de ventilação natural leva à necessidade do uso constante de ventiladores ou condicionadores de ar, que além de encarecer a manutenção da casa, submetem permanentemente seus moradores a condições artificiais prejudiciais à saúde. Todos estes aspectos bem maquiados pela estética, levam as pessoas a se acostumarem com situações ruins, não percebendo os malefícios a que estão sendo expostos.     

Os pilares da Racionalidade e Viabilidade são também essenciais e trabalham em conjunto. Viabilidade é saber se a solução proposta se enquadra na disponibilidade de recursos do cliente ou na sua disposição em investir. Racionalidade é a capacidade de direcionar esta disponibilidade de recursos, diferente para cada cliente, à soluções que melhor atendam as necessidades do projeto,se sem  subestimar ou exagerar, escolhendo os produtos e técnicas que melhor respondam ao investimento feito. Muitas vezes confunde-se barato com econômico: barato é o produto ou serviço que tem o menor preço, independente de qualidade ou durabilidade; econômicos são aqueles que, a despeito de custarem um pouco mais, têm vida útil mais longa, geram menores gastos com manutenção e atendem de maneira mais integral às condições que lhe são impostas. Na outra ponta, os produtos não são escolhidos pelo que efetivamente oferecem em estética e qualidade, mas por sua diferenciação em preços: aplicam-se materiais que serão valorizados apenas por seu custo; é bonito por ser caríssimo. Um bom projeto tem a capacidade de dosar viabilidade e racionalidade para atender as necessidades do cliente.

O resultado do equilíbrio da valorização destes pilares é uma edificação íntegra, que realmente atenderá as suas necessidades com a convicção de ter feito a melhor aplicação dos seus recursos.

Ivan Vasconcellos, arquiteto

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