ARTIGOS

15/12/2012


Morre Oscar Niemeyer. Se é que Niemeyer morre.


A manchete, que parodia um jornal europeu ao noticiar a morte de Pablo Picasso, caberia perfeitamente para homenagear o grande arquiteto, falecido em 5 de dezembro, aos 104 anos.

Publicado na Folha Revista, edição de Dezembro de 2012

A manchete, que parodia um jornal europeu ao noticiar a morte de Pablo Picasso, caberia perfeitamente para homenagear o grande arquiteto, falecido em 5 de dezembro, aos 104 anos. Mitos não morrem; apenas assumem o seu devido lugar na História. A carne e os ossos nos dificultam reconhecer plenamente o status mítico que certas personalidades, como Niemeyer já desfrutavam ainda em vida; a condição ambígua homem-mito nos traz a dificuldade de compreender que as contradições e imperfeições inerentes ao ser humano devem ser tratadas em outro nível. E essa dificuldade acaba por fazer com que a dimensão mítica dos gênios seja subjugada pela sua condição terrena, biológica.

A morte apenas faz romper essa ligação, permitindo-nos compreender a genialidade de uma forma mais transcendente, mais plena,mais universal.

O arquiteto inglês Sir Norman Foster, um dos mais respeitados na atualidade, afirmou sobre Niemeyer: “Poucas pessoas conseguem se encontrar com os seus heróis; eu me sinto realizado por ter tido a chance de conhecer Niemeyer”. Foster nos conta que desde os anos 60 buscou estímulo no trabalho de Oscar Niemeyer, estudando cuidadosamente os seus projetos, a forma como conseguia, a partir dos cânones estabelecido pelo movimento da arquitetura modernista, imprimir tanta personalidade, criando uma maneira própria de fazer arquitetura. E conclui: “ Cinquenta anos depois, o seu trabalho ainda tem o poder de nos surpreender”.
 
A influência de Niemeyer sobre os arquitetos não se dá de maneira formal. Suas formas são tão originais, que torna impossível mesmo inspirar-se nelas, diretamente. Qualquer coisa parecida, nos remete indissociavelmente ao original. Sua influência é mais profunda: acontece na forma de olhar para os problemas, na maneira de entender que a arquitetura está muito além dos pequenos problemas que os programas nos impõem. Por isso foi até criticado, por aqueles que avaliam alguma falta de preocupação com a funcionalidade dos projetos, a quem responde: “Se você ficar preocupado só com a funcionalidade, fica uma merda. Beleza é importante”. Mas ao mesmo tempo se defende: “Funcionar bem toda arquitetura tem que funcionar. Quando eu fiz a sede do partido (Partido Comunista, em Paris), passaram-se dez anos, resolveram fazer o jornal Humanité, eles vieram me pedir. Você acha que se funcionasse mal eles me queriam? ”
Nos ensina sobre a responsabilidade que deve ter o arquiteto sobre o discurso que sua obra carrega. Sobre essa significação da arquitetura, certa vez disse: “ Os projetos têm que ser explicados, para que as pessoas saibam o que conduziu ao resultado final. Quando estou escrevendo a justificativa de um projeto e percebo que não tenho argumentos suficientes, volto ao projeto para refazê-lo.”
 
Sua lição maior para os que trilham os caminhos de produzir uma arquitetura de valor, e que ele dizia ter aprendido com Le Corbusier, arquiteto franco-suiço considerado o Pai da Arquitetura Moderna, era: “Arquitetura é invenção”. Defendia que era obrigação dos arquitetos buscarem sempre soluções novas, novas propostas. “Tem que haver fantasia, tem que haver uma solução diferente. Isso é que é importante na arquitetura.”
 
José Carlos Susekind, um dos calculistas mais ligados ao Mestre, falando sobre a forma com que Niemeyer concebia os projetos, compara sua genialidade à de Mozart, que assentava-se ao piano e compunha uma Sinfonia completa. Exemplifica com o projeto do Memorial da América Latina, cuja concepção completa aconteceu em uma manhã; na parte da tarde, uma conversa acertaram-se alguns pontos e toda a solução estrutural estava pronta. Outro ponto desmentido por Susekind, é a crença de ser muito difícil o cálculo das obras de Niemeyer; segundo ele as soluções estruturais embutidas nas propostas do arquiteto são tão claras e eficientes, que, ao contrário, facilitam o trabalho.
 
Para nós, arquitetos mortais, a facilidade com que Oscar Niemeyer conseguia se libertar das amarras mundanas envolvidas em um projeto, sejam funcionais ou estruturais, transformando-os em obras de arte é irritante, nos apontando a cada trabalho a distância cósmica que separa os gênios dos medíocres.
 
Mas na condição de ídolo, sua trajetória nos facilita o trabalho, apontando o caminho a seguir. Chegar lá, é outro papo.
Outros artigos

A/ZERO ARQUITETURA © 2013