ARTIGOS

13/09/2012


Loucos por carro: até quando?


O aumento crescente da frota nacional de veículos nos leva a ponderar sobre para onde estamos caminhando, sobretudo em termos de sustentabilidade urbana.

Publicado na Folha Revista, edição de Setembro de 2012

Há algumas semanas, quem acompanha o programa dominical AutoEsporte, na Rede Globo, deve ter visto uma reportagem feita em Belo Horizonte, mostrando o lançamento de um edifício que tem uma novidade irresistível para quem é louco por carros. No Parc Zodíaco, prédio assinado pelo arquiteto Gustavo Penna, por módicos 2,8 milhões de reais cada morador pode levar o seu carrão para dentro do apartamento, através de um elevador especial. É uma facilidade que promete deixar qualquer automaníaco fascinado.
Na mesma semana em que a reportagem foi exibida, participei de um Fórum Internacional de Sustentabilidade onde pude assistir a uma palestra com Pooran Desai, diretor da BioRegional uma empresa inglesa que atua na área de projetos sustentáveis, e que entre outras coisas, foi a responsável pela construção do Edifício BedZed, concebido dentro do conceito de emissão Zero de Carbono e pela  implementação e operação do conceito verde nas Olimpíadas de Londres. Na sua palestra, Pooran apresentou o projeto de um novo edifício que está em fase de implantação em Londres; chamado One Brighton, assim como o Parc Zodíaco, também foi rapidamente vendido. A diferença é que no One Brighton não existem vagas de garagem: nenhuma. Ao contrário, o condomínio incentiva os moradores a não terem mais veículos particulares; através do Car Club, o condomínio disponibiliza veículos para quem eventualmente precise de algum, mediante pagamento de uma pequena taxa.
Considerando todos os problemas que vemos rapidamente se avolumar nas cidades, decorrentes do crescimento exponencial do número de veículos, não é difícil imaginar quem está na contramão. Ou melhor, não deveria ser difícil, mas o poder da indústria automobilística, sobretudo no Brasil, torna a avaliação do problema nebuloso; continuamente são investidos milhões de dólares para continuarmos a acreditar que somos todos loucos por carro. E, à medida que outros países ambientalmente mais conscientes começarem a reduzir a utilização de automóveis, todo o poder desta indústria se voltará para os mercados onde o conceito de sustentabilidade ainda não estiver devidamente consolidado.
Dia destes, viajando com um grupo para uma feira em São Paulo, empacamos no trânsito; no momento o tema da conversa era o cigarro, e comentávamos como tinha mudado o comportamento das pessoas em relação a este nocivo hábito. Lembramos dos filmes e publicidades onde o uso dos cigarros passava a idéia de status e poder. Olhando pela janela e vendo o mar de carros que nos cercava, arrisquei o palpite que, um dia estaríamos falando a mesma coisa sobre os carros: "Lembram-se daquela época quando ter um carro era sinônimo de prestígio, sucesso profissional e posição social?" Fui flechado com olhares de descrédito, que sempre atingem os comentários estapafúrdios. Como seria estapafúrdio dizer, em 1970, que um dia as pessoas teriam que sair de um bar ou restaurante para poder fumar; ou que nos maços de cigarro estariam estampadas imagens dos horríveis comprometimentos causados à saúde pelo uso do fumo. 
Existe muito em comum entre a atuação das duas indústrias: ambas produzem artigos que dão grande prazer para seus usuários, ambas recolhem enormes quantias de impostos aos sedentos cofres públicos, amenizando o rigor legal relacionado a elas; além disso, o uso excessivo e a longo prazo de ambas requerem, por parte do Estado, pesados investimentos para tratar as  consequências que provocam.
A poderosíssima indústria do tabaco já foi enfrentada em todo o mundo e hoje a situação é bem mais favorável que nos anos 60 e 70. O mesmo precisa ser feito em relação aos automóveis, não com o intuito de erradicá-los, mas de tirar deles a condição de principal meio de transporte. Só em 2011 foram mais de 3,5 milhões de novos veículos produzidos no Brasil; se considerarmos que cada veículo ocupa uma área aproximada de 12 m², seria necessário que as cidades construíssem mais de 2.000 quilômetros de avenidas por ano; só para não piorar o trânsito. Em São Paulo, a velocidade média do trânsito é de menos de 20km/h; quase a velocidade da galinha. Até em cidades de pequeno porte, como Passos, o trânsito já está caótico e não se acham mais vagas para estacionamento nos locais de maior concentração. 
  Como estamos acompanhando uma migração social crescente, e o sonho de consumo para quem ascende é ter o seu carro zero, o cenário que se pinta é dos mais preocupantes. Para que todos continuem tendo o direito de ter seu sonho de consumo, nem que seja para passear nos fins de semana, é garantir pesados investimentos em transporte público de qualidade, repensar a organização das cidades e encontrar alguma forma de tirar veículos de circulação. Um caminho a ser estudado seria o incentivo ao uso de materiais reciclados de outros veículos em veículos novos e até mesmo vincular a entrada de um carro novo com a retirada de um antigo.
É um assunto polêmico que ainda vai render muita discussão, mas uma coisa é certa. Não há como falar em sustentabilidade num mundo que produz mais de 77 milhões de carros por ano.
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