ARTIGOS

13/07/2012


Gaudi: o arquiteto de Deus


Não existe nada de espontâneo, no sentido da falta de concepção e projeto detalhado, na obra de Gaudí; ao contrário, raras são as obras de arquitetura que tenham conceituação tão profunda como as suas.

Publicado na Folha Revista, edição de Julho de 2012

Quem assiste à Rede Globo pelo sinal da parabólica, nos intervalos da programação já deve ter visto um anúncio institucional de uma retransmissora que fala da Casa da Flor, “obra prima da arquitetura espontânea” e sugere uma comparação com a obra de Gaudi, famoso arquiteto catalão. Se ouvisse isto, ele reviraria no seu túmulo, merecidamente localizado dentro da Catedral da Sagrada Família, obra de sua vida em Barcelona.
A comparação imprópria se deve principalmente ao uso de formas orgânicas, marcantes na obra de Gaudi e o emprego de cacos de azulejos, que é uma técnica tradicional na Catalunha, onde é chamada de trencadís. Mas termina por aqui.
Não existe nada de espontâneo, no sentido da falta de concepção e projeto detalhado, na obra de Gaudí; ao contrário, raras são as obras de arquitetura que tenham conceituação tão profunda como as suas. Tudo é planejado, tudo tem uma razão, um sentido, uma mensagem. E não se fala apenas em elementos estéticos: todos os aspectos envolvidos na arquitetura, como a estrutura, a iluminação, ventilação estão magistralmente trabalhados.
Dois episódios, relatados por Elies Rogent, diretor da escola onde se formou Gaudí, mostram a capacidade do arquiteto. Segundo ele, Gaudí foi um dos alunos mais medíocres que passou pela Escola, tendo sido repreendido várias vezes por faltar às aulas e não se empenhar nas aulas teóricas. Mas quando o tema lhe interessava, transformava-se e passava a se dedicar integralmente, estudando e lendo tudo o que havia sobre o assunto; não raro, chegava a saber mais que o professor.
Certa vez um conhecido arquiteto de Barcelona procurou o professor de Resistência e Estabilidade das Cons-truções da escola, tido como a autoridade máxima no assunto. Trazia uma sugestão de um dos empregados do seu escritório para um projeto, que ele próprio não teve a segurança de implementar. Ao ver o projeto, o professor ficou encantado com a solução estrutural proposta e pediu o nome do arquiteto responsável para que pudesse passar a lhe consultar em questões mais complexas. Na verdade, nem arquiteto era: tratava-se de um aluno seu naquele ano e a quem mal conhecia: Antoni Gaudí. Em função disto, o professor conferiu a Gaudi nota máxima em sua disciplina, dispensando-o de frequentar as aulas restantes.
O outro episódio deu-se na banca que avaliou Gaudi, em seu trabalho final de graduação. Rogent afirma que foi a primeira vez na escola que a banca aprendeu com o aluno e, ao final, reuniu os professores e proferiu: “Hoje conferimos o título de arquiteto a um gênio ou a um louco”.
Visitando a Catedral da Sagrada Família, descobrimos que Rogent não errou: Gaudí era, a um só tempo, gênio e louco. Foge da nossa capacidade imaginar como uma única pessoa possa ter concebido tão profundamente uma edificação. Entrei com minha máquina fotográfica e em poucos minutos entendi que ela seria incapaz que registrar o que estava vendo. Cada centímetro da igreja é diferente do outro e cada um conta uma história. Nenhum elemento é colocado ali sem uma significação profunda - as cores dos vitrais, a forma das colunas, as pedras utilizadas - e para tudo há uma justificativa. Nota-se uma busca da perfeição em cada detalhe, que Gaudi sintetizava numa frase: “Para Deus o grande não é o dimensional, mas o perfeito”.
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