ARTIGOS

24/06/2011


O Arquiteto na obra


Muitas vezes, o papel do arquiteto na obra é comparado à figura do maestro, á frente da sua orquestra. Mas o que ainda falta para que a obra seja uma sinfonia perfeita, com todos os músicos tocando a mesma música?

Publicado na Folha Revista em Dezembro de 2009

Muitas vezes, o papel do arquiteto na obra é comparado à figura do maestro, á frente da sua orquestra. Mas como as pessoas ainda têm uma visão elitista da música clássica, esta imagem vem carregada de preconceitos e a associação é feita apenas com o lado glamouroso da regência: o maestro como a pessoa mais importante, de maior destaque, sobre o pedestal em sua impecável casaca preta e roubando a cena com toda a gesticulação característica. Mas esquece-se do trabalho que precedeu à apresentação de gala, dos vários dias, semanas e até meses debruçado sobre as partituras, estudando os arranjos, dos inúmeros e cansativos ensaios, repetindo à exaustão as passagens mais complexas. Tudo para que, na noite da apresentação tudo pareça meticulosamente organizado, sem um acorde descompassado.

                No caso do arquiteto, a apresentação de gala é a obra pronta; é quando o seu trabalho pode ser visto completo, pode ser percorrido e compreendido em sua plenitude. Mas a obra é apenas o resultado do imenso trabalho de regência que aconteceu meses antes. Prosseguindo na analogia, os projetos são a partitura da obra e os músicos são cada um dos profissionais envolvidos, desde serventes e pedreiros, passando por eletricistas, encanadores, pintores, até os engenheiros dos projetos complementares e até mesmo os fornecedores.

                O que temos observado na construção civil ainda está um pouco distante de uma sinfonia bem orquestrada. Apesar de existir a partitura, os músicos estarem presentes com seus instrumentos, ainda falta ser compreendida a importância da presença do arquiteto na obra como regente dos trabalhos. Por conta da  natureza da sua profissão, é ele que tem uma visão holística da edificação que está sendo erguida, é o profissional que consegue fechar os olhos e andar mentalmente pela construção, que saiu de sua cabeça. Infelizmente os proprietários ainda depositam mais confiança nos mestres de obra e até pedreiros para desempenhar a função de coordenar a obra. Não é raro que orientações feitas pelos arquitetos e engenheiros sejam ignoradas na obra, em detrimento da opinião do mestre ou de pedreiros. E igualmente freqüente é a ocorrência de implicações posteriores, decorrentes desta atitude, que vão demandar a intervenção do arquiteto corrigindo problemas que não se anteviu ao desconsiderar suas orientações iniciais. E que além de tudo ainda vai custar mais ao proprietário.

                Assim, no máximo podemos dizer que a maioria de nossas obras está mais para uma roda de pagode do que para uma orquestra; a música até pode se desenvolver de forma agradável, mas conta muito com o improviso e a sensibilidade de cada um. Uma obra de pequeno porte até pode ser levada no pagode; mas uma edificação de maior complexidade ou onde se pretenda cumprir prazos e orçamentos todo o trabalho tem que ser orquestrado, desde a elaboração dos projetos complementares até a limpeza final. Todos os projetos devem ser compatibilizados de antemão para evitar transtornos e alterações nas etapas seguintes.

                E, na obra, ainda que o arquiteto não seja o administrador ou coordenador, sua presença deve ser estimulada de forma regular, pois ele é o profissional mais capacitado a identificar erros ou divergências que mais à frente vão significar retrabalho e desvio do cronograma e do orçamento. Muitas vezes, os proprietários e os mestres de obra evitam chamar o arquiteto na obra, com receio das observações que serão feitas, dos erros que ele vai possivelmente detectar e, sobretudo, das alterações de projeto que são usualmente procedidas pelas costas do profissional. Mas temos que formar a consciência de que o arquiteto é um aliado, que trabalha para que a sua edificação fique o mais perfeita possível, atendendo a todos os requisitos definidos pelo proprietário.

                Cada profissional tem uma forma de trabalhar. Alguns incluem determinado número de visitas no custo do projeto, cobrando por visitas que excedam este número; outros preferem definir um acompanhamento regular, semanal ou mensal. Muitos proprietários ainda reclamam, argumentando que se pagaram pelo projeto, é obrigação do profissional acompanhar a obra. Mas, na verdade. Trata-se de um serivço que precisa ser remunerada, pois retira o profissional do seu local de trabalho, obrigando-o a se deslocar até a obra e a permanecer ali por um período de tempo no qual ele estará disponibilizando seu conhecimento e experiência para que o proprietário obtenha os melhores resultados. Portanto nada mais justo que seja remunerado por isto.

A visita técnica regular do arquiteto na obra tem que ser vista como um investimento, que vai garantir a perfeita execução do projeto elaborado, corrigindo erros e desvios que certamente reduzirão o custo geral da obra e aumentarão a sua qualidade.

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