ARTIGOS

28/06/2011


Emoção: Quando uma construção se torna Arquitetura


A edificação tem que ser estruturalmente estável, resistir às variações e manifestações climáticas, contemplar todas as exigências funcionais dos seus usuários, ser confortável e ainda expressar uma intenção estética.

Texto publicado na Folha Revista, Edição de Abril/2011

Quase todas as vezes que abordei o tema projeto aqui – para não dizer todas - enfatizei os aspectos práticos e técnicos do processo, com o objetivo de tornar mais claro para todos o que é projetar e qual a importância de um bom projeto. Mas, acima de tudo, arquitetura é arte, é emoção, principalmente para quem encara o ofício não apenas como ganha-pão, mas como vocação.
 Essa emoção acaba sendo mascarada pela natureza da construção, que para ter sucesso, precisa atender perfeitamente o tripé técnica-função-arte: a edificação tem que ser estruturalmente estável, resistir às variações e manifestações climáticas, contemplar todas as exigências funcionais dos seus usuários, ser confortável e ainda expressar uma intenção estética.
Pelo montante de investimentos que consome uma construção, entendemos que o processo tem que ser encarado com profissionalismo, a despeito do caráter artístico que continua tendo.  Por isto, nos cercamos de uma estrutura comercial que esconde o arquiteto-artista que continua a existir por trás das frias cláusulas de contrato, das planilhas, dos relatórios, dos recibos. Para o bem do processo, estabelecemos procedimentos que disciplinam e organizam a relação cliente-profissional, garantindo a ambos segurança quando às responsabilidades de cada um; isto faz com que o cliente nos percebam apenas como técnicos, frios, calculistas e racionais. A própria palavra “cliente” não reflete a relação de intimidade que passa a existir ao discutirmos em detalhes todas as nuances da vida cotidiana de cada família; não raro, precisamos ser mais psicólogos que arquitetos.
 Enquanto empresa, em nosso escritório cuidamos de separar as funções, com pessoas diferentes exercendo tarefas diferentes; assim o administrador cuida dos aspectos comerciais e o arquiteto cuida de projetar. Mas do lado do cliente, esta separação quase sempre não é percebida e a imagem do arquiteto acaba por se tornar burocrática, afastando toda a magia que envolve o ato de projetar.
 Esta magia é o combustível que move todos aqueles profissionais que exercem a profissão por vocação, que têm paixão pelo que fazem e que não tratam a arquitetura apenas como construção. Alguém já disse que “não se forma um arquiteto: ele nasce arquiteto”. É uma afirmação que hoje é discutível, pois a arquitetura se desenvolveu, passando por um processo de sub-especialização que ampliou muito o espectro de atividades técnicas que empregam arquitetos. E não são menos importantes por serem técnicas; ao contrário, viabilizam e tornam a edificação mais perfeita.
 Mas para quem atua no olho do furacão, que é a concepção formal e conceitual da edificação, a vocação e a inspiração continuam sendo fundamentais. Você pode ensinar uma pessoa a tocar piano até que ela seja tecnicamente irrepreensível, um virtuose. Mas ela dificilmente transmitirá a emoção de alguém que toca verdadeiramente com a alma, com paixão, ainda que com alguma limitação técnica.
 No projeto, esta paixão se traduz pela busca em atingir uma expressão formal, que abrigue corretamente todas as funções que vão se desenvolver, mas que acima de tudo emocione a quem vivencie ou observe a edificação.  Pode ser uma implantação não convencional no terreno, um volume inusitado, a posição de uma porta ou uma janela buscando uma vista sobre a paisagem, uma luz que entre por uma abertura no teto, uma maneira diferente de integrar e relacionar espaços, uma proposta diferente de uso, uma determinada cor ou um material diferente.   Também pode esta paixão se manifestar na busca incansável por tornar a estrutura parte da concepção formal da construção, fazendo cada elemento ser imprescindível para o conjunto, nem mais, nem menos.   Costumamos dizer que se tirarmos de uma edificação tudo que é enfeite, superficial, desnecessário, o que sobra é arquitetura; e não é fácil enxergar isto numa época em que se valoriza tanto o superficial, aquilo que reveste, que faz “parecer”.
 Muitas vezes, temos o projeto resolvido técnica e funcionalmente, mas perdemos semanas buscando traduzir aquilo em uma arquitetura de valor. Algo que, muitas vezes, o cliente talvez nem enxergue ou valorize num primeiro momento, mas que vai alterar a forma com que a edificação, ainda que inconscientemente, interfira em sua vida. Entendo que, na maioria das vezes, a casa não é apenas um investimento imobiliário, mas o abrigo de um projeto de vida, de felicidade, de prosperidade, de crescimento pessoal. Por isso, cada desenho que vai sendo consumido pela construção deve transferir a ela porções da emoção, do carinho e do cuidado que durante meses o arquiteto consolidou no projeto.
 Em conjunto, estas porções de emoção são responsáveis por transformar um monte de tijolos, areia e cimento em arquitetura, na mais pura acepção do termo.

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