ARTIGOS

29/06/2011


A Responsabilidade é Verde


O texto trata da consolidação do respeito à natureza, não através de atos revolucionários, mas de um comportamento cotidiano, adaptando sua rotina a uma forma mais racional de viver sobre o planeta.

Publicado na revista Integração/CIC

Em meados da década de 90, o diretor polonês Krzysztof Kieslowski filmou a trilogia das cores, uma série de filmes sobre os ideais da revolução francesa, formada por “A liberdade é azul”, “A igualdade é branca” e “A fraternidade é vermelha”. Comparando o poder de transformação que estes ideais tiveram sobre a história do mundo com o esforço global em curso no sentido de estabelecer limites aceitáveis de exploração do planeta, certamente a sustentabilidade mereceria ganhar um lugar na famosa trilogia. “A  responsabilidade é verde” trataria da importância da consolidação do respeito à natureza, não através de atos revolucionários, mas de um comportamento cotidiano de cada ser humano, adaptando sua rotina a uma forma mais racional de viver sobre o planeta, enquanto ainda existe algum planeta.

Desde que o mundo trocou o “penso, logo existo” do racionalismo cartesiano pelo “compro, logo existo” do consumismo desenfreado, a degradação ambiental se acelerou de forma exponencial. Some-se os sonhos de consumo de bilhões de pessoas, construídos a custa de trilhões gastos em publicidade e marketing, com a ganância pelo lucro que impulsiona as empresas e o resultado é simples e direto: estamos nos condenando a terminar nossos dias numa esfera estéril, inóspita, a vagar pelo universo divulgando a incompetência do ser humano em administrar a própria vida e confirmando não haver mesmo vida inteligente por aqui.

Uma prova inequívoca do caminho a ser seguido nos foi dada recentemente, no período em que o mundo passou por uma das mais severas crises financeiras já registradas. Um relatório da Agência Internacional de Energia (AIE), antecipado pelo jornal britânico Financial Times, informa que durante o período recente de recessão houve uma redução “sem precedentes” na emissão de dióxido de carbono (CO2). Considerando os maiores registros de redução de emissão anteriores, associados às crises do petróleo ocorridas em 1973 e 1981, constatamos que, quando a economia vai mal, o consumo e a produção caem e o planeta melhora.

Ainda que, segundo os dados da AIE, 25% desta redução devam ser creditados às políticas de emissão de CO2de alguns países e empresas, a constatação desta queda expressiva nos mostra que a verdadeira reviravolta acontecerá em função do estabelecimento de bases para um consumo responsável. A economia existe em função do consumo, que deve suprir as necessidades físicas e psicológicas das pessoas; estas últimas são as mais perigosas, pois são facilmente construídas e introduzidas em nós pela propaganda. Com certeza, a maior parte do que consumimos é fruto de aspirações desvinculadas totalmente de nossas necessidades essenciais.

Segundo o teólogo Leonardo Boff, é responsável o consumidor ciente das consequências do padrão de consumo que pratica, passando a assumir uma atitude mais contida e não submetida aos impulsos do desejo ou aos apelos publicitários. Boff resume em quatro pontos o que deve caracterizar o consumo responsável: redução dos objetos de consumo, ponderando o que nos é realmente indispensável; reutilização de produtos que já usamos, maximizando e potencializando sua vida útil; reciclagem dos produtos e de suas sobras rejeitos ou recipientes, dando-lhes outro fim que nos tenha utilidade; e, finalmente, rejeição do que é oferecido pelo marketing com fúria ou sutilmente para ser consumido, sem que corresponda a uma necessidade legítima.

Paralelamente a este comportamento, é necessário que toda a cadeia produtiva assuma a postura de uma economia de baixa emissão, desde a concepção dos produtos, passando pela escolha de matérias primas cuja extração não cause degradação ambiental até a definição de processos de fabricação baseados em tecnologias que se utilizem de fontes de energia renováveis e que não gerem rejeitos prejudiciais ao meio-ambiente. Pensar que esta atitude possa partir do mercado, numa postura altruísta e humanitária é uma ingenuidade, uma vez que ele só age na direção do que se converta em lucros. Basta notar que as políticas de sustentabilidade só começam a ser efetivamente implantadas em função dos impactos financeiros que possam agregar. Quando as empresas observam que o quesito “responsabilidade ambiental” aumenta o interesse de investidores privados, valorizando consequentemente suas ações em bolsas de valores, elas passam a investir em aspectos que enfatizam a sustentabilidade. Quando as tecnologias de obtenção de energia de fontes renováveis passam a ser economicamente viáveis, reduzindo gastos com manutenção, as empresas investem em equipamentos que poluem e degradam menos o meio ambiente, mesmo que o custo inicial seja maior que os similares poluentes.

Para que todas estas hipóteses funcionem, é preciso que as pessoas sejam conscientizadas do poder que têm, através da transformação das suas atitudes individuais no dia-a-dia em comportamento de massa. Ao dar preferência a um produto que é fabricado com respeito à natureza, a massa obriga os outros fabricantes que pretendam permanecer no mercado a buscar o mesmo caminho; ao optar por um produto cuja embalagem não permaneça por séculos poluindo o planeta, leva os outros fabricantes a buscarem soluções que atendam a estes anseios. Ao utilizar somente a madeira certificada, tira do mercado as madeireiras que se sustentam graças à extração clandestina. Não se trata de privação de confortos que foram agregados ao nosso cotidiano, mas de se formar uma nova consciência de questionamento e supressão de costumes fúteis e hábitos ambientalmente condenáveis. Já começamos a ver, por exemplo, uma mudança de comportamento da indústria automobilística americana, que, pressionada pela crescente preferência por modelos europeus e orientais - menores, mais baratos e econômicos -  está deixando de produzir os imensos veículos que sempre caracterizaram o american way of life. Partindo disto, não é difícil imaginar o que representaria uma população gigantesca como a da China, por exemplo, exigindo responsabilidade ambiental nos produtos que consome.

A publicidade, que sempre trabalhou para as empresas construindo nas pessoas necessidades de consumo, deve ser utilizada para conscientizar estes mesmos consumidores da importância de serem responsáveis. Da mesma maneira que é usada pelos governos na luta contra a bilionária indústria do tabaco e que, aos poucos, mas de forma consistente, vem conseguindo que o hábito de fumar deixe de ser associado a uma condição de status social privilegiado e passe a ser visto como uma prática condenável e socialmente rejeitada. Também as escolas têm um papel fundamental na consolidação destes conceitos de comportamento ambiental responsável, seja ensinando boas práticas desde os primeiros passos da criança ou, num nível mais avançado, incentivando e desenvolvendo pesquisas que aprimorem os processos de produção, que ensinem como obter lucro da sustentabilidade. E assim, convençam as pessoas de que a cor da responsabilidade pela perpetuação da espécie humana sobre a Terra é o verde.

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