ARTIGOS

29/06/2011


A casa que existe em cada terreno


A maioria das pessoas não se dá conta da importância da escolha do terreno para a casa que pretendem construir. E ainda são poucos os que pensam no arquiteto como aliado neste momento.

Publicado na Folha Revista/2010

A maioria das pessoas não se dá conta da importância da escolha do terreno para a casa que pretendem construir. E ainda são poucos os que pensam no arquiteto como aliado neste momento; entendem que seja mais uma atribuição do corretor de imóveis, uma questão apenas de investimento imobiliário.

Mas é muito mais que isso. O processo correto seria primeiro assentar-se com o arquiteto e definir a casa que se pretende construir: suas características, que espaços devem ser incluídos, o pré-dimensionamento. E só depois destas definições estabelecidas, partir para a definição do terreno ideal. Um terreno apenas será suficiente? A caída do terreno é favorável à implantação que mais me agrada? Vou poder fazer uma casa aberta como eu queria?

Ao entrar num terreno, identificamos o percurso que faz o sol sobre ele, as correntes de ar, as interferências existentes, como construções vizinhas, e até mesmo as possibilidades futuras de interferência externa. A topografia do terreno nos dita a melhor forma de implantação, qual a solução mais viável economicamente e de que forma podemos tirar maior proveito das visadas sobre a paisagem oferecida. Também nos atentamos para as possibilidades de acesso, seja social ou serviço, além de outras condicionantes, como condições das vias de tráfego, fontes de ruído, vegetação existente, etc;  Todos estes fatores já estão no terreno quando você o compra. Já tive vários casos de clientes que me chegam com a exigência de uma casa plana, mas com terrenos que são verdadeiras “pirambeiras”; acabam tendo que pagar o preço de uma estrutura de fundação que, na maioria das vezes custa mais que o próprio terreno e resulta numa edificação que agride a paisagem. Hoje, com os preceidos da construção sustentável em alta, se recomenda a menor alteração possível no terreno, a fim de minimizar a agressão topográfica e também de se reduzir a emissão de carbono resultante do trabalho das máquinas de terraplanagem e do transporte da terra retirada.

Conta-se uma história sobre um grande escultor, que acabara de esculpir um magnífico cavalo a partir de um bloco de pedra. Alguém, encantado com o trabalho, perguntou-lhe como ele conseguia esculpir com tamanha perfeição. Ele respondeu: “- É muito simples, não tem segredo. Basta retirar da pedra tudo aquilo que não seja o cavalo!”.

Com o terreno ocorre situação semelhante: é só deixar livre tudo o que não é a casa. Cada local já traz uma demarcação imaginária dos espaços ideais para cada atividade e o segredo está em saber enxergá-las. Quanto mais nos aproximamos desta estrutura oculta, melhor será o projeto. Todas as vezes que tentamos subverter essa compartimentação intrínseca, impondo ao terreno uma edificação que não lhe corresponde, somos penalizados com a piora das condições ambientais dos espaços, seja em termos de iluminação, ventilação, setorização e até de bem-estar.

Assim, o sucesso de um projeto repousa na capacidade do arquiteto em captar na essência as necessidades e aspirações do cliente quanto à casa que vai projetar e, num segundo momento, “ler” no terreno a sua estrutura oculta, delimitando os locais exatos para cada atividade.

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