ARTIGOS

29/06/2011


Arquitetura, vida e morte


Quando se trata de construção, as pessoas ainda não dão o devido valor às qualidades do espaço edificado, não são capazes de reconhecer a falência das condições ambientais ideais em suas casas e não sentem falta delas.

Publicado na Folha Revista/2010

CLÍNICO GERAL, faço cirurgias cardíacas, oftalmológicas, ortopédicas e neurológicas; anestesia e enfermagem, também feita por mim incluída no preço!”.

MÉDICO PRÁTICO. Faço sua cirurgia por um preço dez vezes menor, com assinatura de um médico especialista e complacência do CRM.”

 Como você reagiria ao se deparar com um dos anúncios acima? Para os que têm consciência, os anúncios são cômicos; para os profissionais da área ele causaria revolta e para as autoridades eles se converteriam em investigação. Pouquíssimas pessoas deixariam de se assustar com o absurdo proposto naqueles classificados, afinal é a vida humana sendo tratada com total descaso e irresponsabilidade, que poderiam levar à morte. Ainda assim, seriam pessoas de baixísimo poder aquisitivo e formação sócio-cultural quase nula, que estariam sendo impelidas para a utilização destes serviços por uma pobreza absoluta e total ignorância e inocência.

 Agora, imagine uma situação parecida:

 ENGENHEIRO CIVIL, faço projetos estruturais, elétricos, hidro-sanitário, de telefonia; projeto arquitetônico, também feito por mim, incluído no preço!

ARQUITETO PRÁTICO. Faço as plantas e fachada de sua casa por um preço dez vezes menor, com assinatura de um engenheiro e complacência do CREA. Copio com fidelidade o seu projeto de fotografias de revistas ou obras prontas.”

 Com certeza, o seu espanto não foi tão grande. Embora o absurdo seja exatamente da mesma natureza, os últimos anúncios se aproximam muito de uma prática comum no setor da construção civil, aceito e muitas vezes utilizado por muitas pessoas, inclusive de boa posição sócio-econômica e razoável formação cultural.

 Onde mora então a diferença?

 Pudemos acompanhar pela imprensa uma investigação, onde um médico no interior de Minas Gerais estava sendo acusado de provocar a morte de duas de suas pacientes. As mortes teriam sido provocadas pela iniciativa de proceder às intervenções cirúrgicas assumindo para si todas as funções de uma equipe médica, usualmente composta de um ou mais cirurgiões, pelo menos um anestesista, enfermeira padrão e auxiliares. Durante o procedimento, ocorreram complicações que certamente, com um profissional especialista na equipe, em dia com o desenvolvimento da especialidade, vivenciado em situações críticas e ocupado exclusivamente em monitorar os sinais vitais das pacientes poderia ter evitado ou controlado de maneira mais eficiente. O resultado é que as pacientes vieram a falecer.

 O médico só foi denunciado porque as pessoas dão valor à vida, sabem reconhecer a morte dos organismos e sentem a perda de seus entes queridos.

 E é aqui que reside a diferença: quando se trata de construção, as pessoas ainda não dão o devido valor às qualidades do espaço edificado, não são capazes de reconhecer a falência das condições ambientais ideais em suas casas e não sentem falta delas. Na maioria das vezes, acreditam que uma boa maquiagem, sempre confundida com decoração, pode dar ao espaço tudo o que o mau projeto não proporcionou.

 Mantendo a analogia, seria o mesmo que nos contentássemos em ter aquele ente querido que faleceu, embalsamado, sentado sempre naquela poltrona que ele mais gostava, vestido com a roupa da moda, uma maquiagem e corte de cabelos up-to-date com as tendências mais fortes da estação. Uma vez mais a cena nos parece absurda mas é exatamente o que acontece em inúmeras obras prontas e em execução pelo país, sem nos parecer tão absurdo assim.

 É preciso que saibamos reconhecer que ao tratarmos de um projeto de arquitetura, estamos lidando com questões vitais ao ser humano, como seus batimentos cardíacos, sua pressão arterial, enfim, seu bem-estar físico e mental. A casa é o local onde se vive e não um amontoado de paredes feitas para abrigar instalações elétricas e hidráulicas, vigas e pilares; as paredes servem para delimitar espaços vivenciais e não apenas para pendurar gravuras que combinem com a cor da casa, fixar revestimentos que são a última moda ou espelhos para “dar uma sensação de espaço”.

 É preciso que as pessoas associem de uma vez por todas a vida ao local onde se vive; e que passem a dar importância aos sinais vitais relevantes de um bom projeto.

 É pouco provável que você consiga um cardiologista que lhe faça uma neurocirurgia, por melhores que sejam as noções de neurologia que ele tenha; em contrapartida, são comuns os projetos arquitetônicos executados por engenheiros que não tiveram formação suficiente para isto.

 Você dificilmente se entregaria a um curandeiro, sabendo que ele é charlatão, para que ele lhe fizesse uma cirurgia cardíaca; não obstante diariamente vemos projetos elaborados por desenhistas, desenheiros, projetistas, projeteiros, decoradores, e autodidatas em geral sem o mínimo compromisso com preceitos que são ensinados durante anos nas escolas de Arquitetura. E não são apenas preceitos estéticos; são preceitos funcionais, ambientais, ergonométricos. Preceitos que têm ligação direta com a qualidade de vida nas edificações. E que têm sido preocupantemente esquecidos por profissionais e sobretudo, pelos moradores.

 Enquanto estes não aprenderem a reconhecer que sua vida pode ser melhor numa casa melhor projetada, será como não conseguirem entender que aquela figura sentada na da poltrona da sala, embora maquiada, sorridente, com a roupa da estação, está mortinha da silva.

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